{"id":951,"date":"2026-02-06T00:15:00","date_gmt":"2026-02-06T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=951"},"modified":"2026-03-04T19:34:49","modified_gmt":"2026-03-04T22:34:49","slug":"o-aniversario-das-coisas-esquecidas","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/o-aniversario-das-coisas-esquecidas\/","title":{"rendered":"O Anivers\u00e1rio das Coisas Esquecidas"},"content":{"rendered":"\n<p>O galp\u00e3o na Pedreira do Orleans, aquelas constru\u00e7\u00f5es antigas de metal que rangem quando o vento bate. A porta de enrolar estava levantada at\u00e9 a metade, luzes coloridas piscando l\u00e1 dentro, som de funk antigo misturado com rock dos anos 90 saindo t\u00e3o alto que dava pra sentir no peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota chegou de Gol Bolinha Cinza 2003 pela entrada secund\u00e1ria, estacionou torto, porta do motorista aberta, mochila laranja jogada no banco do carona. Desceu com a camiseta regata vinho j\u00e1 suada do calor de maio, t\u00eanis novo nos p\u00e9s. Isqueiro amarelo no bolso da cal\u00e7a, como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha j\u00e1 estava na porta de mestre de cerim\u00f4nias, microfone na m\u00e3o, batom rosa choque, gritando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 REGRA DA NOITE, GENTCHY! Quem n\u00e3o trouxer presente n\u00e3o entra! \u00c9 anivers\u00e1rio do homem mais gostoso de Curitiba, caralho!<\/p>\n\n\n\n<p>A fila avan\u00e7ava at\u00e9 o contorno norte. Todo mundo que Jota cruzou na vida aparecia ali como se tivesse sido convocado por Deus pessoalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Pistolinha chegou primeiro, 27 anos de energia concentrada, caixa na m\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota! Trouxe o Uther do World of Warcraft, vers\u00e3o colecionador! Tava guardando desde 2008!<\/p>\n\n\n\n<p>Abra\u00e7o apertado. Aperto de ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o precisava, Pistolinha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Claro que precisava. 44 anos, caralho!<\/p>\n\n\n\n<p>Leninha apareceu logo atr\u00e1s, 26 anos, cabelo cacheado preso num coque bagun\u00e7ado, vestido florido, olhos brilhando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota, trouxe o rel\u00f3gio do vov\u00f4 que ele guardava na gaveta. Disse que era pra te dar quando fizesse 44.<\/p>\n\n\n\n<p>O rel\u00f3gio era antigo, pesado, pulseira de couro rachada. Jota colocou no pulso na hora. Funcionava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o precisava, Leninha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Precisava sim. Vov\u00f4 deixou guardado pra ti.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai chegou quieto, como sempre. Camisa social azul clara, barba feita, apertou o ombro de Jota com for\u00e7a:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Parab\u00e9ns, filho.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 isso. Mas foi o suficiente pra Jota engolir seco.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira passou do lado dele carregando uma caixa de som enorme, gritou sem parar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Depois eu volto, Jota! T\u00f4 indo buscar gelo!<\/p>\n\n\n\n<p>E sumiu, claro.<\/p>\n\n\n\n<p>A regra do presente pegou. Cada um que entrava deixava algo na mesa improvisada do lado da porta: livro usado de Bukowski, planta suculenta, garrafa de whisky, cubo m\u00e1gico quebrado, um cara at\u00e9 trouxe um pneu careca dizendo que era &#8220;pra sorte&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha anotava tudo numas folhas soltas que arrancou do caderno capa dura marrom de Jota. Ele viu de longe e j\u00e1 deixou quieto.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota agradecia cada presente:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o precisava, s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas todo mundo insistia. Era anivers\u00e1rio dele. 44 anos. Precisava sim.<\/p>\n\n\n\n<p>A festa engrossou. M\u00fasica alta. Gente dan\u00e7ando. Bebida circulando.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a\u00ed que Jota viu ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado de fora do galp\u00e3o, do outro lado da porta de enrolar meio levantada. Cabelo ruivo brilhando sob a luz da entrada, blusa preta justa, m\u00e3os vazias. Olhando direto pra Jota com aqueles olhos grandes, nervosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem presente.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha barrava, fiel \u00e0 regra:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Amor, precisa de presente pra entrar. Regra \u00e9 regra.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs olhou pra ele, depois pro Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu tenho presente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cad\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o respondeu. Levou as m\u00e3os pra baixo da blusa preta. Mexeu nas costas. Puxou algo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tirou o suti\u00e3 por dentro da blusa.<\/p>\n\n\n\n<p>Preto, rendado, fino.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogou na m\u00e3o do Rosquinha.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o inteiro que viu explodiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Gritos. Assovios. Risadas. Aplausos.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs ficou parada ali, blusa justa marcando tudo agora, sem suti\u00e3, peitos livres balan\u00e7ando de leve, mamilos duros aparecendo atrav\u00e9s do tecido fino. Olhando direto pro Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha olhou pro Jota, esperando decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou pra ela. Little Boobs, 1,55m de pura ousadia, presente inusitado na m\u00e3o do Rosquinha, olhos fixos nele, sorriso pequeno.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Entra \u2014 ele disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela passou por Jota devagar, t\u00e3o perto que ele sentiu o perfume dela misturado com cheiro de cigarro e ansiedade. Passou sem suti\u00e3, blusa marcando cada movimento, cada curva.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o vibrou de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota desviou o olhar. Voltou pra festa.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica explodiu. Algu\u00e9m gritou o nome dele. Leninha filmava com o celular. Pistolinha no meio da pista j\u00e1 dan\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>Cotonete apareceu do nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Alto, magro, cabelo desgrenhado, sorriso torto. No bra\u00e7o esquerdo, o toco. N\u00e3o tinha m\u00e3o, s\u00f3 o pulso terminando em pele lisa e cicatriz antiga.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed, Jota? \u2014 Cotonete gritou de longe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E a\u00ed, Cotonete!<\/p>\n\n\n\n<p>Eles se abra\u00e7aram no meio da pista. Aperto de ombro. Tapinha nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Trouxe presente? \u2014 Jota perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>Cotonete levantou o toco:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Trouxe eu. Isso j\u00e1 n\u00e3o conta?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Conta dobrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Riram juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma mulher que Jota n\u00e3o conhecia passou perto, olhou pro Cotonete, fez cara de nojo, virou pro grupo de amigas e falou alto de prop\u00f3sito:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse a\u00ed \u00e9 o aleijado que t\u00e1 sempre grudado no Jota, n\u00e9? Que coisa triste.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou de rir na hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou pra ela, voz calma mas pesada:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Repete.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher deu risada, nervosa:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah, relaxa, \u00e9 s\u00f3 uma\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Repete \u2014 Jota repetiu, mais baixo, mais s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio ao redor. A m\u00fasica continuava mas ningu\u00e9m dan\u00e7ava mais perto deles.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher tentou rir de novo mas a risada saiu falsa:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu tava s\u00f3\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sai daqui.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sai da minha festa. Agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ficou parada, olhando em volta, esperando que algu\u00e9m risse junto, que virasse piada. Ningu\u00e9m riu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deu um passo na dire\u00e7\u00e3o dela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu disse: sai.<\/p>\n\n\n\n<p>A mulher saiu. R\u00e1pido. Sem olhar pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota respirou fundo. Olhou pro Cotonete.<\/p>\n\n\n\n<p>Cotonete tava sorrindo. N\u00e3o aquele sorriso torto de sempre. Um sorriso de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Valeu, Jota.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>A festa voltou. M\u00fasica alta. Luzes piscando. Todo mundo dan\u00e7ando de novo como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Cotonete ficou ali parado, olhando pra Jota como quem acabou de entender alguma coisa importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele levantou o toco direito devagar. Fez uma rever\u00eancia meio torta, meio s\u00e9ria, meio brincalhona.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota riu. Fez rever\u00eancia de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 ATEN\u00c7\u00c3O, CURITIBA! Esse homem a\u00ed \u00e9 o rei da noite, caralho! Quem ama o Jota grita! \u2014 Rosquinha no microfone.<\/p>\n\n\n\n<p>O galp\u00e3o inteiro gritou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira finalmente apareceu com o gelo, jogou na mesa de bebidas e sumiu de novo antes que algu\u00e9m agradecesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a\u00ed que o pai voltou.<\/p>\n\n\n\n<p>Quieto, como sempre. Camisa social azul, nas m\u00e3os um quadro com moldura de madeira escura.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro do quadro: o par de t\u00eanis surrados. Aquele par. Ded\u00e3o aparecendo nos dois, sola quase solta, sujo de tudo que Jota j\u00e1 tinha pisado na vida.<\/p>\n\n\n\n<p>E ao lado dos t\u00eanis, fixado no vidro: o \u00edm\u00e3 do Posto Esso. Cinza fosco, beiradas descascando, logo quase apagado.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota parou de respirar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esses dois \u2014 o pai bateu de leve no vidro \u2014 j\u00e1 te salvaram mais vezes do que eu consigo contar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sil\u00eancio entre os dois. A festa continuava ao redor, mas ali era s\u00f3 pai e filho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O t\u00eanis te fazia parar na hora certa. Cadar\u00e7o soltando \u2014 \u00e0s vezes o direito, \u00e0s vezes o esquerdo, variava. Te salvou de atropelamento. Te fez achar coisas perdidas no ch\u00e3o. Te protegeu.<\/p>\n\n\n\n<p>O pai apontou pro \u00edm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E esse aqui brilhava azul toda vez que fam\u00edlia tava perto. Tua m\u00e3e passava, brilhava. Eu passava, brilhava. Teus irm\u00e3os, brilhava. Te mostrava que nunca tava sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota engoliu seco.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora merecem descanso \u2014 o pai continuou. \u2014 Fizeram o trabalho deles. Te protegeram at\u00e9 aqui. Agora \u00e9 tua vez de seguir sem eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixou o quadro nas m\u00e3os de Jota. Apertou o ombro dele com for\u00e7a. Saiu quieto como entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou segurando o quadro. T\u00eanis surrados emoldurados. \u00cdm\u00e3 ao lado. Passado protegido atr\u00e1s do vidro. Futuro aberto l\u00e1 fora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o precisava, pai \u2014 ele sussurrou sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas precisava.<\/p>\n\n\n\n<p>A mochila laranja tava l\u00e1 na mesa de presentes, aberta, caderno marrom meio pra fora. O isqueiro amarelo no bolso da cal\u00e7a dele, como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota olhou em volta: pai encostado na parede, orgulhoso quieto; Leninha filmando; Pistolinha no ombro do Cotonete; Little Boobs no canto, sem suti\u00e3 sob a blusa preta, sorrindo de leve.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota dan\u00e7ou at\u00e9 o ch\u00e3o tremer.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a festa acabou, de madrugada, o galp\u00e3o tava vazio, ch\u00e3o cheio de copo pl\u00e1stico, cinza de cigarro, purpurina.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentou na sarjeta em frente ao galp\u00e3o, corpo pesado. Olhou a rua silenciosa da Pedreira do Orleans. Curitiba dormia. Maio gelado. Vento batendo na camiseta regata vinho rasgada.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou no pai entregando o quadro. Nos t\u00eanis e no \u00edm\u00e3, finalmente em descanso. No rel\u00f3gio pesado no pulso. No Cotonete fazendo rever\u00eancia com o toco.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabia que amanh\u00e3 ia esquecer metade dos rostos, tr\u00eas quartos das conversas, quase tudo que rolou depois da meia-noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ia lembrar do aperto de ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ia lembrar de ter defendido quem importava.<\/p>\n\n\n\n<p>Ia lembrar de ter deixado entrar quem merecia.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou, cansado mas inteiro. Caminhou at\u00e9 a entrada secund\u00e1ria onde tinha deixado o Gol Bolinha estacionado torto.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu a porta, entrou, puxou a porta pra fechar. Colocou a chave na igni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O bra\u00e7o veio de tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Fino, r\u00e1pido, pano grosso encharcado pressionado contra nariz e boca com for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheiro qu\u00edmico penetrante. Doce e sufocante.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota reagiu no instinto \u2014 m\u00e3o grande subiu, agarrou o pulso fino, puxou. A outra m\u00e3o tentou arrancar o pano. Dedos grudaram no tecido. Superbonder. Ela tinha COLADO no rosto dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele explodiu. 110 kg de m\u00fasculo e pavor se jogaram pra frente, cotovelo batendo pra tr\u00e1s, tentando acertar ela. Conseguiu abrir a porta do motorista, cambaleou pra fora do carro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ar livre. Rua vazia. Pedreira do Orleans, quatro da manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Puxou o pano com desespero. N\u00e3o sa\u00eda. Colado. Pele esticando, ardendo. Cada pux\u00e3o arrancava um peda\u00e7o de pele mas o pano continuava grudado, selado no rosto, for\u00e7ando ele a respirar s\u00f3 vapores qu\u00edmicos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9ter queimando garganta, pulm\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu tr\u00eas passos cambaleantes. Quatro. Tentou gritar mas s\u00f3 saiu som abafado.<\/p>\n\n\n\n<p>Virou pra tr\u00e1s, procurando ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs sa\u00eda do carro pela porta do carona, pequena, calma, olhos fixos nele.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabelo ruivo. Blusa preta sem suti\u00e3. Sorriso pequeno.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para de lutar \u2014 ela disse baixo. \u2014 S\u00f3 vai piorar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota tentou correr. Pernas n\u00e3o obedeciam. Peso nos membros. Ch\u00e3o inclinando. Vis\u00e3o emba\u00e7ando nas bordas, manchas escuras crescendo, engolindo tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Caiu de joelhos. Depois de lado no asfalto.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo girando. Escurecendo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Little Boobs se aproximou. Ele ainda se mexia \u2014 bra\u00e7o tentando alcan\u00e7ar algo, perna raspando no ch\u00e3o, sons abafados saindo do pano colado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela ajoelhou ao lado dele, pegou a seringa que tinha no bolso da cal\u00e7a. Ketamina. Dose calculada.<\/p>\n\n\n\n<p>Segurou o bra\u00e7o dele com as duas m\u00e3os. Ele tentou puxar mas n\u00e3o tinha for\u00e7a. Corpo mole, grogue, consciente mas indefeso.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Para quieto \u2014 ela sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Puxou a manga da camiseta vinho. Encontrou a veia no antebra\u00e7o. Enfiou a agulha.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele gemeu baixo, som desesperado mas fraco.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela injetou devagar. Esvaziou a seringa.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardou no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p>Os movimentos dele pararam. Bra\u00e7o caiu pesado no asfalto. Respira\u00e7\u00e3o ficou mais lenta, mais profunda. Olhos viraram.<\/p>\n\n\n\n<p>Inconsciente de verdade agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs pegou o frasquinho de acetona, derramou nas bordas do pano colado no rosto dele. Esfregou. A cola amoleceu. Puxou devagar. O pano saiu, deixando a pele vermelha, irritada, sangrando de leve onde rasgou.<\/p>\n\n\n\n<p>Jogou o pano no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou em volta. Rua vazia. Ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhou at\u00e9 onde tinha escondido o carrinho de m\u00e3o e a rampa atr\u00e1s da ca\u00e7amba de lixo, na entrada da viela. Puxou os dois. Carrinho rangendo baixo, rampa de alum\u00ednio dobr\u00e1vel debaixo do bra\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurrou o carrinho at\u00e9 onde Jota tinha ca\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Passou os bra\u00e7os sob as axilas dele. Puxou, usando as pernas, costas arqueada. Conseguiu arrastar meio corpo pra cima do carrinho. Empurrou as pernas. Ajeitou. 110 kg de peso morto agora sobre rodas de ferro.<\/p>\n\n\n\n<p>Empurrou pela rua at\u00e9 o Gol Bolinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu a volta, abriu o porta-malas. Puxou as duas alavancas dentro do compartimento. O banco traseiro rebateu inteiro pra frente, abrindo passagem enorme direto pro porta-malas.<\/p>\n\n\n\n<p>Desdobrou a rampa. Encostou uma ponta no para-choque traseiro, outra no ch\u00e3o. Alum\u00ednio leve mas firme.<\/p>\n\n\n\n<p>Posicionou o carrinho no p\u00e9 da rampa. Respirou fundo. Empurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rodas subindo devagar. Peso puxando pra tr\u00e1s. Ela for\u00e7ou, m\u00fasculos das pernas queimando, suor escorrendo. O carrinho subiu. Chegou no topo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela inclinou, deslizando Jota do carrinho pra dentro do espa\u00e7o traseiro do carro. Ele caiu de lado, pesado, sem resist\u00eancia. Pernas dobradas, bra\u00e7os soltos, cabe\u00e7a apoiada torta no carpete surrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Gigante derrotado ocupando todo o espa\u00e7o onde deveria estar o banco traseiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Little Boobs respirou pesado. Ficou parada ali, olhando pra ele. Rosto machucado, pele vermelha onde o pano tinha arrancado, boca entreaberta, peito subindo e descendo devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dela agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Se inclinou pra dentro do carro. Beijou a boca dele, devagar, como se fosse a coisa mais natural do mundo. L\u00e1bios macios contra os dele im\u00f3veis. Ele n\u00e3o reagiu. N\u00e3o podia reagir.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela sorriu quando afastou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Finalmente \u2014 sussurrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegou o cobertor que Jota sempre deixava dobrado no porta-malas, jogou em cima do corpo dele. Cobriu tudo \u2014 pernas, tronco, cabe\u00e7a. S\u00f3 um volume grande sob tecido escuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixou o banco rebatido pra frente. N\u00e3o tinha for\u00e7a pra mover ele de novo, e nem precisava \u2014 tirar ele de l\u00e1 era problema pra depois, no destino final.<\/p>\n\n\n\n<p>Puxou a rampa, dobrou. Pegou o carrinho. Levou os dois de volta pro esconderijo atr\u00e1s da ca\u00e7amba. Deixou tudo ali. Ningu\u00e9m ia notar at\u00e9 manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou pro Gol Bolinha. Bateu o porta-malas.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou, sentou no banco do motorista. Ajustou o banco pra frente \u2014 pernas curtas demais. Limpou o suor da testa.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pelo retrovisor. Volume escuro coberto pelo cobertor, deitado ali atr\u00e1s. Respira\u00e7\u00e3o abafada mas constante.<\/p>\n\n\n\n<p>Dela agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Girou a chave. O motor roncou baixo, etanol puro, fiel.<\/p>\n\n\n\n<p>Engatou a primeira, soltou a embreagem. Saiu devagar pela entrada secund\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Dirigiu em sil\u00eancio, m\u00e3os firmes no volante, janela fechada. Ruas vazias de Curitiba \u00e0s quatro e meia da manh\u00e3. S\u00f3 o som do motor. S\u00f3 a respira\u00e7\u00e3o dele atr\u00e1s, pesada, abafada pelo cobertor.<\/p>\n\n\n\n<p>Sorriu sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>A festa acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas pra Jota, tudo estava s\u00f3 come\u00e7ando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O galp\u00e3o na Pedreira do Orleans, aquelas constru\u00e7\u00f5es antigas de metal que rangem quando o vento bate. A porta de enrolar estava levantada at\u00e9 a metade, luzes coloridas piscando l\u00e1 dentro, som de funk antigo misturado com rock dos anos 90 saindo t\u00e3o alto que dava pra sentir no peito. 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