{"id":952,"date":"2026-02-07T00:15:00","date_gmt":"2026-02-07T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=952"},"modified":"2026-03-04T19:35:48","modified_gmt":"2026-03-04T22:35:48","slug":"fim-de-fase","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/fim-de-fase\/","title":{"rendered":"Fim de Fase"},"content":{"rendered":"\n<p>Os degraus rangiam como ossos velhos sob o peso coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada pisada devolvia um estalo seco, madeira velha reclamando do esfor\u00e7o de Jota e do grupo que subia atr\u00e1s, ombro a ombro no escuro \u00famido da estrutura abandonada no Centro de Curitiba \u2014 pr\u00e9dio que parecia crescer infinito pra dentro, andares que n\u00e3o existiam no mapa. O cheiro era poeira antiga acordada \u00e0s pressas, sangue seco nas paredes, e aquela podrid\u00e3o agridoce que s\u00f3 zumbis deixam \u2014 mas ali havia algo pior que caos. Havia m\u00e9todo. Como se algu\u00e9m tivesse programado o apocalipse em ondas, n\u00edveis, fases que se ajustavam ao erro humano.<\/p>\n\n\n\n<p>A camiseta regata vinho colava no peito largo de Jota, suada de esfor\u00e7o apesar do frio que subia dos andares inferiores como h\u00e1lito morto. Rasgada na lateral de lutas antigas, marcava a barriga dura de mais de cem quilos de m\u00fasculo e cansa\u00e7o acumulado ao longo de fases que pareciam n\u00e3o acabar. Os t\u00eanis surrados pisavam firme na madeira escorregadia, ded\u00e3o esquerdo aparecendo pelo buraco gasto, cadar\u00e7o direito meio solto ro\u00e7ando o tornozelo a cada degrau \u2014 pronto pra salvar ou complicar, como sempre. No bolso da cal\u00e7a moletom cinza, o isqueiro amarelo sobrevivente batia contra a coxa, fiel como poucos. A mochila laranja balan\u00e7ava nas costas, z\u00edper entreaberto, caderno de capa dura marrom dentro com anota\u00e7\u00f5es rabiscadas em noites sem sono \u2014 &#8220;Fase 7: onda organizada&#8221;, &#8220;Fase 8: porta vermelha?&#8221;, desenhos r\u00e1pidos de zumbis em forma\u00e7\u00e3o, rotas que levavam sempre ao mesmo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>No pesco\u00e7o, pendurado como dog tag, o \u00edm\u00e3 de Posto Esso. Cinza fosco batendo no peito a cada passo. Retangular, pl\u00e1stico barato anos 90, logo quase apagado. Cada um do grupo tinha seu objeto pendurado. Rosquinha, algo que Jota imaginava ser um biscoito petrificado \u2014 combinava com ele. Pop\u00f3, uma manopla de bicicleta surrada. Leandro, uma pequena anilha de academia. Rand, quando aparecia do nada na retaguarda, tinha uma chave inglesa enferrujada balan\u00e7ando no peito.<\/p>\n\n\n\n<p>A horda bloqueava a escadaria inteira. Degrau por degrau. N\u00e3o vinham em desordem selvagem de mortos-vivos famintos. Moviam-se em blocos coordenados, subindo e descendo como ondas sincronizadas em um videogame cruel. Olhos brancos fixos nos alvos. Rosnados baixos, ensaiados, quase respeitosos. Esperando o erro. Calculando o momento exato pra fechar o cerco.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha, ao lado esquerdo de Jota, voz aguda cortando o sil\u00eancio tenso como faca no escuro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Caralho, Ch\u00f4, esses zumbis t\u00e3o mais organizados que fila de banco no fim do m\u00eas. Parece que t\u00e3o jogando no hard mode s\u00f3 pra foder a gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3, do lado direito, faca na m\u00e3o, olhos fervendo pro vazio abaixo, pronto pra explodir:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Deixa eu cortar um. S\u00f3 um, porra. Pra ver se desorganiza essa merda toda e a fase avan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 no peito de Jota esquentou de leve. Pop\u00f3 bem ao lado. Sempre esquentava perto de sangue familiar. Irm\u00e3o ali, vivo, lutando junto. O calor sumiu r\u00e1pido quando Pop\u00f3 se afastou dois passos.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro Costa, apelido que colou nesse apocalipse infinito: NoPainNoGame, ria rouco atr\u00e1s, arma no ombro, recarregando com calma ir\u00f4nica:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sem dor sem jogo, brothers. Essa fase t\u00e1 pedindo headshot em sequ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira surgia do nada na retaguarda, macac\u00e3o azul sujo de sangue seco e graxa velha, chave inglesa balan\u00e7ando no peito, ajustando a mochila de muni\u00e7\u00e3o como se fosse ferramenta de oficina:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Calma. Segue o ritmo deles. Eles esperam erro. N\u00e3o erra. Eu cubro as costas.<\/p>\n\n\n\n<p>E sumia de novo na penumbra entre os degraus, fantasma t\u00e9cnico que aparecia quando a coisa apertava e desaparecia quando n\u00e3o precisava mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota apertou a arma contra o peito, cano quente de tiros recentes. Respirou fundo o ar podre. Acelerou o passo, sentindo o suor frio escorrer pelas costas apesar do frio.<\/p>\n\n\n\n<p>O grupo seguiu no mesmo compasso. Qualquer quebra na sincronia e a horda fechava o cerco como algoritmo se ajustando.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegaram a um patamar mais amplo, respira\u00e7\u00e3o ofegante ecoando nas paredes descascadas. A primeira leva avan\u00e7ou com precis\u00e3o milim\u00e9trica. Bocas abertas, dentes quebrados brilhando na luz fraca, membros r\u00edgidos movendo-se em un\u00edssono \u2014 precisos, como se algu\u00e9m invis\u00edvel comandasse o timing exato.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota girou o corpo. Mirou na testa do primeiro. Tiro seco. Cabe\u00e7a explodiu como saco de tinta preta, miolo espirrando na parede. Outro veio logo atr\u00e1s, ajustando o \u00e2ngulo pra evitar o corpo ca\u00eddo. Dois tiros r\u00e1pidos no peito, terceiro na nuca. Golpe com a coronha no cr\u00e2nio do pr\u00f3ximo que chegou perto demais. Cada corpo ca\u00eddo era substitu\u00eddo imediatamente por outro que subia do degrau abaixo, olhos brancos recalculando o caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha atirava ao lado, voz cantando piada negra no meio do caos pra afastar o medo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Headshot, headshot, zumbi sem teto! Essa fase t\u00e1 f\u00e1cil, Ch\u00f4!<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 cortava um que chegou perto demais, l\u00e2mina entrando no pesco\u00e7o podre, riso sangue-quente explodindo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Finalmente cortei um! Valeu a espera, porra. Pr\u00f3ximo!<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro, NoPainNoGame, recarregava rindo nervoso, tiro preciso derrubando dois de uma vez:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sem dor sem jogo, brothers.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand surgiu de novo ao lado de Jota, ombro a ombro no patamar apertado, atirando preciso na onda que subia do andar de baixo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Mais uma leva ajustando. Segue o padr\u00e3o. Eu cubro o flanco.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima criatura da onda tombou com um tiro na nuca que fez o corpo rolar degraus abaixo, batendo nos que vinham. Sil\u00eancio caiu pesado de repente. Mais perigoso que os rosnados coordenados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 frente, na penumbra do corredor que parecia n\u00e3o pertencer ao pr\u00e9dio, a porta corredi\u00e7a enorme. Vermelha. Enferrujada como casco de navio afundado, recolocado ali como pe\u00e7a de um level que ningu\u00e9m pediu.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se aproximou devagar. Arma levantada. Respira\u00e7\u00e3o entrecortada ecoando no vazio. O grupo esperou alguns passos atr\u00e1s, dedos no gatilho, olhos varrendo as sombras que pareciam se mover sozinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele agarrou a ma\u00e7aneta com as duas m\u00e3os. Metal frio mordendo as palmas, \u00e1spero de ferrugem. Pesado demais pra uma porta comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Puxou com for\u00e7a. M\u00fasculos tensionando. Camiseta esticada.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta resistiu por um segundo que pareceu eternidade. Depois cedeu de uma vez. Grito met\u00e1lico ecoou como alarme de game over.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma for\u00e7a invis\u00edvel agarrou o peito dele. Puxou pra dentro como m\u00e3os gigantes escondidas. Jota voou pelo ar. Bateu no ch\u00e3o duro do outro lado, costelas reclamando. Arma quicou na parede met\u00e1lica fria. Caiu longe, fora de alcance.<\/p>\n\n\n\n<p>Rolou pra reagir. Procurou brecha na escurid\u00e3o. Nada. Outra porta id\u00eantica surgiu atr\u00e1s, vermelha corredi\u00e7a, fechando sozinha com estrondo final. Selando tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Gritos abafados do outro lado. Rosquinha batendo furioso:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ch\u00f4! Abre essa merda, porra!<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 cortando o ar com a faca, l\u00e2mina batendo no metal:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vou cortar essa porta se n\u00e3o abrir agora!<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro rindo nervoso, voz tremendo pela primeira vez:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 New level solo, brothers&#8230; sem save point. Caralho, isso \u00e9 cheat.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand voz calma do outro lado, abafada:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ele t\u00e1 sozinho agora. Fase final. Eu&#8230; ajustei pra isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou de p\u00e9 devagar, costas doendo. C\u00f4modo abafado. L\u00e2mpadas fracas pulsando nas paredes como respira\u00e7\u00e3o artificial de m\u00e1quina velha. Cheiro de mofo pesado, impregnado com odor agridoce de podrid\u00e3o organizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Zumbis esperavam ali dentro. Parados em forma\u00e7\u00e3o. Pacientes. Olhos brancos fixos nele. Respirando lento, sincronizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Avan\u00e7aram devagar. Respeitando o momento. Como se soubessem que era fase solo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota correu pra arma ca\u00edda. Pegou. Mirou no primeiro. Tiro na cara. Cr\u00e2nio explodiu. Passou por cima do corpo. Golpeou outro com coronha na t\u00eampora. Afundou. Empurrou terceiro contra a parede.<\/p>\n\n\n\n<p>O cadar\u00e7o direito soltou de uma vez. P\u00e9 pisou em falso. Jota trope\u00e7ou, corpo caindo pro lado. Evitou por cent\u00edmetros a mordida que vinha na altura do pesco\u00e7o \u2014 dentes fecharam no ar, rangendo. Rolou no ch\u00e3o. Levantou. Cadar\u00e7o arrastando solto.<\/p>\n\n\n\n<p>Atravessou o c\u00f4modo lutando. Sensa\u00e7\u00e3o de algoritmo se ajustando a cada movimento. Cada zumbi reagindo ao dele. Adaptando ao medo. N\u00e3o aleat\u00f3rio. Programado.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou ao c\u00f4modo menor. Paredes descascadas rachando como tela quebrada. Escrivaninha velha no centro, madeira podre. Abajur sem l\u00e2mpada iluminando fraco uma silhueta sentada. De costas. Corpo inclinado. Ombros curvados sob peso que Jota conhecia bem.<\/p>\n\n\n\n<p>O ar mudou de vez. Mais pesado. Mais frio. Como fim de run.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem virou o rosto devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand Oliveira.<\/p>\n\n\n\n<p>Macac\u00e3o azul. Chave inglesa no peito. Olhar calmo. T\u00e9cnico. Como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota sentiu o mundo desabar inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Logo voc\u00ea&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Voz saiu rouca. Quebrada. Sem for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas os p\u00e9s j\u00e1 se moviam. Jota avan\u00e7ou. Arma levantada. Dedo no gatilho. Cem quilos de m\u00fasculo e raiva lan\u00e7ados contra a escrivaninha.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand n\u00e3o se mexeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas levantou a m\u00e3o direita. Gesto m\u00ednimo. Dedos se movendo como quem ajusta controle.<\/p>\n\n\n\n<p>Os zumbis explodiram em movimento. Dois agarraram os bra\u00e7os de Jota. Outro golpeou as pernas. Quarto mordeu o ombro por tr\u00e1s. Jota gritou, tentou se soltar, golpeou com a coronha. In\u00fatil. Seguravam firme demais. Coordenados demais.<\/p>\n\n\n\n<p>A arma escorregou da m\u00e3o suada. Bateu seco no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As pernas cederam. Jota caiu de joelhos. Depois sentou. Bra\u00e7os moles no colo. Olhos fixos em Rand.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand apenas observou. Sem surpresa. Sem culpa. M\u00e3os cruzadas na escrivaninha. Chave inglesa balan\u00e7ando de leve no peito.<\/p>\n\n\n\n<p>Os zumbis se aproximaram. Lentos. Pacientes. Como se obedecessem comando silencioso dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre eles, Larissa.<\/p>\n\n\n\n<p>Corpo alto ainda perfeito na morte. 1,75 de curva letal. Pernas grossas marcando a cal\u00e7a rasgada. Blusa destru\u00edda deixando piercings nos mamilos \u00e0 mostra. Olhos brancos fixos nele. Boca aberta devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Avan\u00e7ou. Quase carinhosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mordeu o bra\u00e7o primeiro. Dentes afundando na carne. Dor quente subindo r\u00e1pida. Distante, como se o corpo j\u00e1 desistisse.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro zumbi mordeu o ombro.<\/p>\n\n\n\n<p>Pele deles come\u00e7ou a apodrecer acelerado ao tocar. Carne escurecendo. Rachando. Virando mingau preto pegajoso. Escorrendo. Pingando. Po\u00e7as fedorentas no ch\u00e3o enquanto ainda mordiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa mordeu o pesco\u00e7o. Devagar. Dentes rasgando a camiseta vinho. Carne cedendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota fechou os olhos. Pensamento obcecado invadindo tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissinha. Bucetinha perfeita. Deliciosa. Quente \u2014 chave de buceta inesquec\u00edvel que ela deu nele. Calor que agora voltava como dor queimando o pesco\u00e7o rasgado. Prazer perdido virando podrid\u00e3o. Noites de suor limpo apagadas por sangue sujo. Marcada s\u00f3 pra ele em fases que agora pareciam outra vida. Perdida pra sempre nessa.<\/p>\n\n\n\n<p>Abriu os olhos. Larissa ainda ali. Mordendo. Apodrecendo devagar. Carne escorrendo como mingau. Po\u00e7a no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota pegou o isqueiro no bolso com a m\u00e3o livre. Acendeu na primeira. Chama azul dan\u00e7ando.<\/p>\n\n\n\n<p>Aproximou de zumbi perto. Pele pegou fogo f\u00e1cil. Apodreceu mais r\u00e1pido. Fuma\u00e7a preta subindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa olhou a chama. Olhos brancos sem express\u00e3o. Mordeu mais fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota deixou o isqueiro cair. Chama apagou na po\u00e7a viscosa.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3o bateu na mochila. Caderno caiu. P\u00e1ginas abertas na po\u00e7a. Jota olhou antes de borrar. &#8220;Fase 8: porta vermelha? Rand?&#8221; escrito tr\u00eas noites atr\u00e1s. Ele j\u00e1 sabia. J\u00e1 desconfiava. Rand tinha plantado tudo desde o come\u00e7o. Anota\u00e7\u00f5es virando manchas ileg\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00edm\u00e3 no pesco\u00e7o de Jota brilhou fracamente. Cinza fosco virando azul p\u00e1lido. Logo apagado. Brilho sutil ecoando Pop\u00f3 l\u00e1 fora \u2014 irm\u00e3o batendo na porta selada, gritando nome que n\u00e3o chegava mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Brilho morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o aguento mais&#8230; \u2014 murmurou Jota. Olhou Rand. \u2014 N\u00e3o com voc\u00ea aqui. Traindo no fim. Ajustando as fases todas.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand inclinou a cabe\u00e7a. Primeira rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea achou que eu subia com voc\u00eas? \u2014 disse calma. T\u00e9cnica. \u2014 Eu j\u00e1 estava aqui antes de abrirem a porta. Voc\u00eas subiram devagar demais. Conhecia cada corredor, cada parede falsa, cada atalho. Tive tempo de ir e voltar antes de chegarem na porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Pausou. Olhos vazios percorrendo Jota como se lesse relat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Grupo se tornou previs\u00edvel. Rosquinha com piadas. Pop\u00f3 com raiva. Leandro com frases. Voc\u00ea com hesita\u00e7\u00e3o. Padr\u00f5es identificados, catalogados, explorados. N\u00edvel de dificuldade estava baixo demais. Grupo muito confort\u00e1vel. Precisava de evento de ruptura pra calibrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado da porta, Leandro voz tremendo ao ouvir o eco abafado de Rand:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Trai\u00e7\u00e3o no boss final? Porra, Rand&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Rand n\u00e3o respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas olhou Jota embranquecendo devagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Corpo esfriando inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Formigamento virando rigidez.<\/p>\n\n\n\n<p>Larissa \u00faltima mordida. Pesco\u00e7o rasgado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensamento final fixo na Larissinha perdida.<\/p>\n\n\n\n<p>Corpo levantou r\u00edgido.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosnado baixo saiu da garganta.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand na escrivaninha acenou. Gesto t\u00e9cnico. Trabalho conclu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porta vermelha rangeu. Abriu sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Grupo viu Jota sair. Olhos brancos. Boca aberta. Passo lento.<\/p>\n\n\n\n<p>Pop\u00f3 levantou a faca. M\u00e3o tremendo. Olhos enchendo. Irm\u00e3o ali. Mas n\u00e3o era mais irm\u00e3o. N\u00e3o era mais Jota. Era corpo corrompido usando pele dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Rosquinha voz sumida pela primeira vez:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ch\u00f4&#8230; \u2014 sussurrou. Som nem saiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro baixou a arma. N\u00e3o conseguia mirar. Dedo travado no gatilho.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota avan\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Rand na escrivaninha, l\u00e1 dentro, j\u00e1 ajustando pr\u00f3xima fase.<\/p>\n\n\n\n<p>Nova fase come\u00e7ando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os degraus rangiam como ossos velhos sob o peso coletivo. Cada pisada devolvia um estalo seco, madeira velha reclamando do esfor\u00e7o de Jota e do grupo que subia atr\u00e1s, ombro a ombro no escuro \u00famido da estrutura abandonada no Centro de Curitiba \u2014 pr\u00e9dio que parecia crescer infinito pra dentro, andares que n\u00e3o existiam no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"featured_media":1672,"menu_order":38,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","meta":[],"livro":[18],"personagem":[27,86,228,1503,256,81,217,1504],"genero":[1387,279,1388],"tom":[1390,41,1366],"timeline":[1408],"versao_jota":[49,1447],"categoria_cap":[1448,1449,1244],"item_essencial":[33,31,37,34,32,35],"tema":[1451,1450,1452],"local":[1210,45,1454,1455,1453],"keyword":[1456,1462,1461,1460,1458,1459,426,1457],"class_list":["post-952","capitulo","type-capitulo","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","livro-dias-apos-um-fim","personagem-gpjota","personagem-larissa-albuquerque","personagem-leandro-costa","personagem-nopainnogame","personagem-popo","personagem-rand-oliveira","personagem-rosquinha-dende","personagem-zumbi","genero-acao","genero-ficcao-cientifica","genero-terror","tom-desesperador","tom-tenso","tom-traicao","timeline-tech","versao_jota-normal","versao_jota-zumbi","categoria_cap-apocalipse-zumbi","categoria_cap-game-over","categoria_cap-traicao","item_essencial-caderno-marrom-de-capa-dura","item_essencial-camiseta-regata-vinho","item_essencial-ima-posto-esso","item_essencial-isqueiro-amarelo-o-sobrevivente","item_essencial-mochila-laranja","item_essencial-tenis-surrado","tema-apocalipse-programado","tema-traicao","tema-transformacao-em-zumbi","local-centro","local-curitiba","local-escadarias","local-porta-vermelha","local-predio-abandonado","keyword-apocalipse-em-fases","keyword-dog-tags","keyword-game-over","keyword-larissa-zumbi","keyword-porta-vermelha","keyword-rand-traidor","keyword-transformacao","keyword-zumbis-organizados"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo\/952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/capitulo"}],"about":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/types\/capitulo"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=952"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1672"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"livro","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/livro?post=952"},{"taxonomy":"personagem","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/personagem?post=952"},{"taxonomy":"genero","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/genero?post=952"},{"taxonomy":"tom","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tom?post=952"},{"taxonomy":"timeline","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/timeline?post=952"},{"taxonomy":"versao_jota","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/versao_jota?post=952"},{"taxonomy":"categoria_cap","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/categoria_cap?post=952"},{"taxonomy":"item_essencial","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/item_essencial?post=952"},{"taxonomy":"tema","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/tema?post=952"},{"taxonomy":"local","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/local?post=952"},{"taxonomy":"keyword","embeddable":true,"href":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/wp-json\/wp\/v2\/keyword?post=952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}