{"id":954,"date":"2026-02-09T00:15:00","date_gmt":"2026-02-09T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/?post_type=capitulo&#038;p=954"},"modified":"2026-03-04T19:37:36","modified_gmt":"2026-03-04T22:37:36","slug":"octopus-tentaculos","status":"publish","type":"capitulo","link":"https:\/\/ziev.com.br\/gpjota\/livro\/dias-apos-um-fim\/capitulo\/octopus-tentaculos\/","title":{"rendered":"Octopus-Tent\u00e1culos"},"content":{"rendered":"\n<p>A ilha parecia um labirinto de \u00e1gua escura e concreto rachado. Diques altos separavam cada quadrante como muralhas de pris\u00e3o, e o som constante das ondas batendo contra as paredes ecoava como respira\u00e7\u00e3o pesada de alguma coisa gigante e invis\u00edvel. O c\u00e9u estava cinza, sem sol, e o ar cheirava a ferrugem, sal e algo podre que vinha do fundo dos canais. No centro da ilha, erguida sobre palafitas grossas de madeira escura, uma casa de telhado verde e janelas pequenas parecia o \u00fanico lugar seguro. As palafitas j\u00e1 rangiam, inclinadas. Uma das janelas tinha a vidra\u00e7a quebrada.<\/p>\n\n\n\n<p>No centro da \u00e1gua, Leandro Costa j\u00e1 n\u00e3o era gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, ele tinha sido apenas um rapaz magro, de ombros curvados, que ningu\u00e9m na ilha suportava. Falava demais, ria sozinho, aparecia em festas sem ser convidado. O desprezo foi crescendo devagar, como ferrugem: primeiro os olhares, depois os apelidos, depois o sil\u00eancio quando ele chegava. A ilha inteira virou as costas pra ele. E Leandro guardou tudo isso dentro, at\u00e9 o dia em que n\u00e3o coube mais.<\/p>\n\n\n\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o aconteceu num amanhecer cinza. A pele dele rachou como casca de \u00e1rvore velha, os ossos estalaram num som \u00famido, e do corpo magro nasceu uma cobra gigante, negra e brilhante, com escamas que refletiam a luz suja da \u00e1gua. Mas o pior n\u00e3o era a cobra. O pior eram os tent\u00e1culos: dezenas deles saindo das costas do monstro como chicotes vivos, cada um terminando em ventosas que abriam e fechavam com vontade pr\u00f3pria. Cada tent\u00e1culo se movia independente, arrancando peda\u00e7os de concreto, chicoteando a \u00e1gua at\u00e9 formar ondas que subiam pelos muros.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro Costa virou Octopus.<\/p>\n\n\n\n<p>E Octopus n\u00e3o perdoava mais ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota estava na margem oposta do canal quando viu a transforma\u00e7\u00e3o. 1,83 de altura, 110 kg de corpo que j\u00e1 tinha visto coisa demais, barba cheia respingada de \u00e1gua suja, cabelo grudado na testa. Ele n\u00e3o sabia o que vinha. Mas sabia que n\u00e3o podia ficar parado.<\/p>\n\n\n\n<p>Correu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c1gua batia nos tornozelos. O cora\u00e7\u00e3o batia r\u00e1pido demais, o ar queimava nos pulm\u00f5es, e a camiseta regata vinho grudava no peito encharcada de suor e \u00e1gua suja. Os t\u00eanis surrados chapinhavam na lama, e o cadar\u00e7o direito \u2014 aquele maldito cadar\u00e7o que nunca ficava amarrado \u2014 batia solto contra o tornozelo a cada passo.<\/p>\n\n\n\n<p>Octopus apareceu na curva do canal.<\/p>\n\n\n\n<p>A cabe\u00e7a de cobra emergiu devagar da \u00e1gua escura. Grande. Maior do que deveria ser. Olhos amarelos brilhavam como far\u00f3is, l\u00edngua bifurcada grossa provando o ar. Os tent\u00e1culos subiram atr\u00e1s, deslizando pelas paredes dos diques como dedos procurando algo pra esmagar. Um deles veio r\u00e1pido demais, cortando o ar. Outro chicoteou a lateral do dique gritando um nome \u2014 grave, arrastado, cheio de rancor. Jota n\u00e3o conseguiu entender, mas reconheceu o tom: era nome de algu\u00e9m da ilha, algu\u00e9m que tinha virado as costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota levantou a m\u00e3o por instinto.<\/p>\n\n\n\n<p>O poder veio gelado, azul, subindo pelos dedos como choque el\u00e9trico ao contr\u00e1rio. Jota sentiu o frio queimando as veias do bra\u00e7o, subindo at\u00e9 o ombro, pesado e vivo como algo que n\u00e3o era dele mas obedecia mesmo assim. A \u00e1gua onde o tent\u00e1culo passava congelou na hora, virou bloco s\u00f3lido e transparente. O tent\u00e1culo ficou preso no gelo at\u00e9 a metade, e Octopus gritou com voz de serpente, um som que parecia rasgar o c\u00e9u cinza em peda\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota nem esperou pra ver o resto. Subiu na margem de concreto do dique, t\u00eanis escorregando na pedra molhada. Correu.<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s dele, l\u00e1 embaixo, o canal inteiro estava congelando, gelo se espalhando como teia de aranha azul sobre a \u00e1gua preta. Jota pulou uma pilha de destro\u00e7os, passou por baixo de um cano enferrujado, e foi nesse momento que o cadar\u00e7o direito enroscou em algo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele trope\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Caiu de joelhos na lama, ar saindo dos pulm\u00f5es num grunhido. E foi exatamente nesse segundo que um tent\u00e1culo passou chiando por cima da cabe\u00e7a dele, t\u00e3o perto que Jota sentiu o vento frio e o cheiro de podrid\u00e3o. Se n\u00e3o tivesse trope\u00e7ado, o tent\u00e1culo teria arrancado a cabe\u00e7a dele do pesco\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>O t\u00eanis surrado tinha salvado a vida dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se levantou r\u00e1pido, cora\u00e7\u00e3o batendo na garganta, e correu mais forte. Atr\u00e1s dele, Octopus rugia, quebrando o gelo com golpes furiosos dos tent\u00e1culos. O som ecoava pelos canais como trov\u00e3o molhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a\u00ed que Rand Oliveira apareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele surgiu do nada, saindo de tr\u00e1s de um dique quebrado, correndo na dire\u00e7\u00e3o oposta com os olhos arregalados, sangue escorrendo de um corte na testa, bigode grisalho pingando, e o macac\u00e3o azul encharcado at\u00e9 os joelhos. Quando viu Jota, Rand parou por um segundo, ofegante. Viu o gelo espalhado no canal. Viu as m\u00e3os de Jota ainda fumegando frio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota! Esse poder&#8230; \u2014 Rand respirou fundo, apontou pro outro lado da ilha. \u2014 Tem uma gruta! Do outro lado, perto das casas! Tu consegue fechar a entrada com isso!<\/p>\n\n\n\n<p>E desapareceu virando a esquina de outro canal, como se nunca tivesse estado l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota continuou correndo. Chegou no muro alto que separava os setores da ilha, um pared\u00e3o de concreto cinza com escada de ferro enferrujada subindo at\u00e9 o topo. Podia ter subido. Podia ter pulado pro outro lado e seguido em frente, deixado a ilha pra tr\u00e1s, deixado Octopus pra tr\u00e1s, deixado tudo pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas parou no primeiro degrau.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhou pra tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 longe, do outro lado do canal congelado, a casa elevada estava iluminada. Janela aberta, luz amarela fraca vazando pra fora, cortina balan\u00e7ando com o vento.<\/p>\n\n\n\n<p>Correu para l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota chegou na casa ofegante, subiu a escada de madeira das palafitas dois degraus de cada vez. Entrou pela janela. A fam\u00edlia estava junta na sala, olhando pela janela da frente, rostos p\u00e1lidos. Tinham visto. Tinham ouvido. Sabiam que algo terr\u00edvel estava acontecendo l\u00e1 fora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Jota! \u2014 a m\u00e3e virou, al\u00edvio e p\u00e2nico misturados no rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tenho um lugar seguro! \u2014 Jota foi direto pra mochila laranja jogada no canto. Abriu, come\u00e7ou a jogar coisas dentro. \u2014 Vamos sair agora!<\/p>\n\n\n\n<p>Jogou dentro: pacote de biscoito da mesa, duas garrafas d&#8217;\u00e1gua, isqueiro amarelo. No fundo da mochila, o caderno de capa dura marrom j\u00e1 estava l\u00e1. O \u00edm\u00e3 de geladeira do Posto Esso preso na capa com fita adesiva velha brilhava azul p\u00e1lido, fraco mas vivo. Jota n\u00e3o tirou o caderno. S\u00f3 notou o brilho, fechou a mochila, jogou nas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Onde? \u2014 o pai perguntou, voz tensa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gruta do outro lado. Vamos! Agora!<\/p>\n\n\n\n<p>Desceram a escada correndo, todos juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00edram pra rua. O caos estava em todo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Octopus destru\u00eda tudo. E crescia. Cada segundo parecia maior, escamas se expandindo, tent\u00e1culos se alongando. J\u00e1 passava da altura dos telhados. Casas desabavam com um golpe s\u00f3. Madeira voava. Concreto rachava. E os tent\u00e1culos pegavam gente.<\/p>\n\n\n\n<p>Um grito cortado na rua ao lado. Som \u00famido de ventosa grudando. Depois sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota corria, mochila laranja batendo nas costas, fam\u00edlia trope\u00e7ando atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Gruta! \u2014 berrou, voz rachada. \u2014 Todo mundo pra gruta do outro lado!<\/p>\n\n\n\n<p>Portas se abriram. Pessoas sa\u00edram correndo em todas as dire\u00e7\u00f5es. Algumas seguiram a voz de Jota, virando pra mesma rua, correndo junto. Outras fugiram pro lado oposto, desaparecendo entre as vielas. Um homem trope\u00e7ou. Tent\u00e1culo veio r\u00e1pido demais. Jota virou o rosto.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podia parar. N\u00e3o podia salvar todo mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Continuou correndo.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 longe, Octopus era monstruosidade que bloqueava o c\u00e9u cinza. Maior que as casas. Maior que os diques. Crescendo ainda. Os tent\u00e1culos fustigavam estruturas inteiras, arrancando peda\u00e7os, esmagando tudo no caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>A gruta ficava do outro lado da ilha, fenda larga na rocha, entrada escura como boca aberta. Jota chegou ofegante, fam\u00edlia atr\u00e1s, mais gente chegando de todos os lados. Crian\u00e7as chorando. Velhos cambaleando. Todo mundo entrando trope\u00e7ando, empurrando, procurando espa\u00e7o no fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota ficou do lado de fora. Virado pra ilha. L\u00e1 longe, conseguia ver Octopus destruindo as \u00faltimas casas, cada golpe arrancando peda\u00e7os da ilha. O monstro vinha na dire\u00e7\u00e3o deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou as duas m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>O poder veio mais forte dessa vez, queimando os bra\u00e7os inteiros, subindo at\u00e9 os ombros como gelo derretido ao contr\u00e1rio. Gelo brotou da pedra molhada, subiu das po\u00e7as, camada sobre camada, bloqueando a entrada da gruta. Azul transl\u00facido, grosso, denso. Jota for\u00e7ou mais. A parede subiu at\u00e9 quase fechar tudo. Deixou um canto aberto no lado direito, fenda estreita suficiente pra algu\u00e9m passar de lado. Ar frio entrava por ali. N\u00e3o era pris\u00e3o. Era defesa.<\/p>\n\n\n\n<p>A vis\u00e3o come\u00e7ou a escurecer nas bordas. Os bra\u00e7os tremiam. O frio tinha virado dor pulsante.<\/p>\n\n\n\n<p>Jota se virou, passou pela fenda estreita, entrou na gruta. As pernas falharam. Caiu de joelhos no ch\u00e3o de pedra \u00famida.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 fora, o rugido de Octopus ecoava cada vez mais perto.<\/p>\n\n\n\n<p>E ent\u00e3o ouviu.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pancada surda e pesada contra o gelo. O impacto fez a parede inteira tremer.<\/p>\n\n\n\n<p>Os olhos de Jota fecharam sozinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>A escurid\u00e3o veio antes da segunda batida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ilha parecia um labirinto de \u00e1gua escura e concreto rachado. 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